Mostrando postagens com marcador accountability. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador accountability. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Acredita porque quer...

Jornal do Commercio, 10 dezembro 2010

Há sigilo bancário no Brasil? Publicado em 10.12.2010
Fernando J.Ribeiro LinsEm que pese tratar-se de um caso isolado, é bastante preocupante o posicionamento do Supremo Tribunal Federal (STF) em recente caso levado a julgamento que tratou do sigilo bancário.
O caso decorreu de requerimento formulado pela Receita Federal junto à instituição financeira em que uma determinada empresa possuía conta corrente. Pretendia a Receita que o banco lhe entregasse os extratos e demais documentos pertinentes à movimentação bancária da empresa investigada, sem qualquer intervenção do Poder Judiciário.
Depois de uma batalha jurídica, a empresa investigada conseguiu, junto ao STF, liminar suspendendo a quebra de seu sigilo bancário através de simples requerimento da Receita Federal.
Todavia, quando do julgamento do mérito da medida judicial ajuizada, entenderam os senhores ministros, pelo placar de seis votos a quatro, que a liminar deveria ser cassada, pois, segundo o entendimento vencedor, o que acontece não é a quebra de sigilo, mas a transferência de sigilo, que passa dos bancos ao Fisco, o qual, por sua vez, preservará e utilizará a informação apenas para a investigação pretendida.
Não é crível tal entendimento! O poder de investigação do Estado não lhe concede um mandato em branco para que possa afastar ou atropelar direitos constitucionais já consagrados em nossa sociedade. Não podendo esquecer que nenhum direito pode ser exercido em detrimento da ordem pública ou com desrespeito aos direitos de terceiros.
Ora, atos deste tipo apenas enfraquecem o estado democrático de direito, principalmente quando se verificam os abusos cometidos por alguns funcionários da Receita Federal, sendo oportuno rememorar que um ministro de Estado já renunciou por ter sido acusado de violar o sigilo bancário de um humilde caseiro.
Logo, como bem destacou um dos ministros vencidos naquele julgamento, a intervenção moderadora do Poder Judiciário na resolução dos litígios “revela-se garantia de efetivo respeito tanto ao regime dos direitos e garantias fundamentais quanto à supremacia do próprio interesse público”. Até mesmo porque, como já havia se posicionado o STF em outro julgado, “investigação não é devassa”.
Não há como deixar de reconhecer que as movimentações financeiras de qualquer ente caracterizam-se como direitos íntimos e personalíssimos, só podendo ser violados mediante requerimento fundamentado junto ao Poder Judiciário e o seu deferimento.
A exceção que podemos admitir é o caso das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) uma vez que a própria Constituição Federal lhes conferiu “poderes de investigação próprios das autoridades judiciais”, excluídas outras prerrogativas reservadas aos magistrados.
Nesse contexto, o princípio constitucional que garante o sigilo bancário, que é uma cláusula pétrea, não objetiva obstar que o Estado investigue principalmente aqueles que insistem em atuar à margem da lei, mas resguardar e coibir abusos de direitos. Daí ser de extrema importância a intervenção de um ente neutro, no caso o Judiciário, que analise e decida se determinadas práticas podem ser realizadas em um estado democrático de direito, como acreditamos ser o nosso País.
» Fernando J.Ribeiro Lins é advogado, sócio de Correia de Carvalho & Ribeiro Advogados

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Institutos fantasmas

O Estado de S. Paulo 7 dezembro 2010

Emendas do Orçamento da União de 2011 repetem "farra dos institutos"



Dinheiro público. Parlamentares continuam a alimentar esquema fraudulento de distribuição de verbas para institutos fantasmas e laranjas que têm convênios com setores culturais e de turismo, conforme revelaram reportagens do "Estado" desde domingo
Leandro Colon / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

A farra dos institutos fantasmas com o dinheiro público tem tudo para continuar em 2011. O projeto do Orçamento da União do ano que vem, relatado pelo senador Gim Argello (PTB-DF), prevê, pelo menos, R$ 16 milhões em emendas de parlamentares a essas entidades criadas apenas para intermediar convênios com o governo federal.
Esses contratos são assinados para a realização de eventos culturais, cujos orçamentos e prestações de contas são superfaturados, fraudulentos e assinados por laranjas. Os institutos costumam levar uma comissão de 5% pela intermediação, sem licitação.
Entre o total de emendas previstas Orçamento de 2011,pelo menos R$ 10 milhões são destinados a dois institutos: Planalto Central e Conhecer Brasil. São entidades registradas em endereços falsos e que compraram estatutos de associações comunitárias para funcionar e intermediar convênios nos últimos dez meses, conforme esquema revelado por reportagens do Estado desde o último domingo.
O dono do Conhecer Brasil, Carlos Henrique Pina, foi quem colocou o jardineiro Moisés da Silva Morais como "laranja" numa empresa de assessoria e marketing, também de fachada, subcontratada pela maioria desses institutos fantasmas sediados em Brasília. Agora, Pina quer ganhar dinheiro com o próprio instituto. "Estou na correria", contou ao Estado.
Os campeões de emendas destinadas a essas entidades para o exercício de 2011, segundo análise feita pela reportagem, foram Laerte Bessa (PSC-DF), Luciana Costa (PR-SP) e Geraldo Magela (PT-DF). Também de fachada, o Instituto Brasil Sempre à Frente recebeu, por exemplo, R$ 2,2 milhões em emendas para 2011.
O instituto é presidido por Vanildo Gomes Soares Júnior e recebeu R$ 1,1 milhão em 2010 para realizar shows em 20 cidades do interior paulista, embora seja de Brasília. Vanildo é filho de Izanete Gomes Soares, que dirige o Instituto Renova Brasil, cuja sede é registrada numa vidraçaria. Essa entidade recebeu R$ 532 mil de uma emenda de Gim Argello e repassou todo o dinheiro para a RC Assessoria e Marketing, numa prestação de contas assinada por laranjas.
A vice-presidente desse instituto, Jordana de Assis, é irmã de Divino de Assis, presidente do Planalto Central, beneficiado em 2010 por emendas dos deputados Sandro Mabel (PR-GO), Carlos Alberto Lereia (PSDB-GO) e Bispo Rodovalho (PP-DF). Os parlamentares também destinaram pelo menos R$ 3 milhões em emendas de 2011 ao instituto Integração Brasileira de Educação e Turismo (Inbraest), outra entidade que vive do esquema de convênios da União. Também só existe no papel dentro desse esquema, que agora será investigado pelo Tribunal de Contas da União (veja matéria abaixo).
O Inbraest funciona numa sala de fisioterapia. Seu presidente, Randerson de Oliveira, admitiu ao Estado, em conversa gravada, que suas despesas são pagas pelo que o instituto recebe, embora não se recorde dos últimos convênios assinados: "Agora eu "tô" vagabundo. Trabalho com negócio de moda. Aí "tô" na entidade aí".
O Inbraest recebeu, em setembro, R$ 534 mil de uma emenda de Gim Argello para realizar um evento cultural em Brasília. Mas repassou os recursos para a RC Assessoria, em nome do jardineiro Moisés da Silva Morais e do mecânico José Samuel Bezerra.
Os deputados citados na reportagem foram procurados, mas apenas Geraldo Magela (PT-DF) respondeu ao Estado. Ele disse que listou as entidades que podem ser beneficiadas, mas só decidirá em 2011 quem receberá recursos. "Eu listo todas as entidades que me pedem."